3 de junho de 2026

Inteligência Artificial na Educação: o desafio não é tecnológico, é pedagógico

Inteligência Artificial na Educação: o desafio não é tecnológico, é pedagógico

Nos últimos meses, a Inteligência Artificial passou a ocupar espaço nas reuniões pedagógicas, nos planejamentos escolares e nas conversas entre professores, gestores e famílias. A velocidade com que essas ferramentas estão sendo incorporadas ao cotidiano nos obriga a refletir não apenas sobre seu uso, mas principalmente sobre seu impacto na formação das novas gerações.

A diferença entre usar IA e compreendê-la de forma crítica

Recentemente, nossa pedagoga Gisele Mendes participou do 4º Encontro Internacional de Educação Midiática e compartilhou importantes reflexões em um artigo publicado na comunidade GEG Brasil. Ao ler suas análises e acompanhar os debates que vêm sendo realizados sobre o tema, fui levada a pensar em uma questão que considero central para a educação contemporânea: estamos preparando nossos estudantes para usar a Inteligência Artificial ou para compreendê-la criticamente?

Como editora-chefe do Jornal da Criança e Jovens, acompanho diariamente as transformações no consumo de informação, a influência dos algoritmos na formação de opiniões e os desafios que crianças e adolescentes enfrentam para navegar em um ambiente digital cada vez mais complexo. Por isso, acredito que o debate sobre Inteligência Artificial não pode ser separado da educação midiática.

A IA já faz parte da rotina dos estudantes. Ela influencia o que assistem, pesquisam, leem e compartilham diariamente. Por sua vez, os algoritmos estão presentes nas redes sociais, nos serviços de streaming, nos mecanismos de busca e até nos aplicativos de mensagens. Antes mesmo de entrar na sala de aula, muitos alunos já interagem com sistemas baseados em Inteligência Artificial.

Diante dessa realidade, surge uma pergunta importante: a escola está preparando os estudantes para compreender criticamente essas tecnologias ou apenas para utilizá-las?

Entre os diversos temas debatidos durante o encontro, uma ideia se destacou. O maior desafio da Inteligência Artificial na educação não é tecnológico, é pedagógico.

Hoje, a discussão sobre IA não pode se limitar ao aprendizado de ferramentas ou à criação de comandos mais eficientes. O verdadeiro desafio está em formar estudantes capazes de compreender como essas tecnologias funcionam, quais interesses econômicos e sociais estão envolvidos em seu desenvolvimento e de que forma elas influenciam opiniões, comportamentos e decisões.

Nesse contexto, especialistas defenderam que o letramento em Inteligência Artificial deve ser entendido como uma extensão da educação midiática. Afinal, tão importante quanto saber utilizar uma ferramenta é compreender seus impactos, seus limites e suas implicações éticas.

Essa reflexão se torna ainda mais necessária diante de um cenário em que a desinformação circula com velocidade crescente e as tecnologias digitais assumem um papel cada vez mais relevante na vida cotidiana. Quando a escola não participa dessa conversa, corre o risco de deixar os estudantes sem referências para interpretar criticamente o ambiente digital em que vivem.

Como alguém que trabalha há anos com educação e comunicação, vejo um desafio adicional: precisamos evitar que a IA seja tratada apenas como uma novidade tecnológica. A escola já enfrentou outras revoluções tecnológicas ao longo da história. O diferencial nunca esteve na ferramenta em si, mas na capacidade de formar cidadãos preparados para utilizá-la de forma responsável.

Educar sobre IA vs Educar com IA

Um dos conceitos apresentados durante o encontro e que merece atenção dos educadores é a diferença entre educar sobre IA e educar com IA. Educar sobre IA significa transformar a tecnologia em objeto de estudo, compreendendo seus mecanismos, seus vieses e seus impactos sociais.

Já educar com IA significa utilizar ferramentas inteligentes para apoiar processos de ensino e aprendizagem, ampliando possibilidades pedagógicas e favorecendo novas formas de produção do conhecimento.

As duas abordagens são complementares e igualmente importantes. Uma escola inovadora não é aquela que apenas incorpora novas tecnologias ao seu cotidiano. É aquela que ajuda os estudantes a compreender, questionar e participar das transformações que essas tecnologias promovem.

Outro destaque do encontro foi a proposta apresentada por Mariana Ochs, coordenadora do EducaMídia. Ela sugere seis ações que podem ser desenvolvidas em qualquer disciplina para promover uma relação mais crítica com a Inteligência Artificial:

  • Revelar onde a IA está presente no cotidiano dos estudantes.
  • Coisificar, lembrando que máquinas não pensam nem sentem como seres humanos.
  • Desnaturalizar escolhas tecnológicas que parecem neutras, mas refletem decisões humanas e interesses específicos.
  • Territorializar as discussões sobre dados, trabalho digital e contextos sociais envolvidos no desenvolvimento dessas tecnologias.
  • Interrogar resultados produzidos pela IA, identificando possíveis vieses, estereótipos e limitações.
  • Redirecionar, incentivando os estudantes a propor alternativas, exercendo autoria, criatividade e participação ativa.

O aspecto mais interessante dessa proposta é que ela não depende de conhecimentos avançados em programação nem está restrita às disciplinas de tecnologia. Professores de História, Ciências, Matemática, Língua Portuguesa e de outras áreas do conhecimento também podem promover discussões significativas sobre o tema.

No Jornal da Criança e Jovens, defendemos que a educação midiática tem um papel fundamental nesse processo

Afinal, formar leitores críticos, capazes de avaliar informações, identificar interesses, reconhecer vieses e construir argumentos fundamentados, também é preparar crianças e jovens para conviver com a Inteligência Artificial de forma consciente.

Ao final dessas reflexões, uma conclusão parece inevitável. Os desafios trazidos pela Inteligência Artificial não serão resolvidos apenas por soluções tecnológicas. Eles exigem educação, pensamento crítico, diálogo e participação democrática.

A tecnologia continuará evoluindo. Novas ferramentas surgirão e os algoritmos se tornarão cada vez mais sofisticados. Mas a missão da escola permanece a mesma: formar cidadãos capazes de compreender o mundo em que vivem e atuar nele de forma ética, crítica e responsável.

Mais do que ensinar a usar Inteligência Artificial, precisamos ensinar nossos estudantes a pensar sobre ela

Como sua escola tem trabalhado esse tema? A Inteligência Artificial aparece mais como ferramenta pedagógica, como objeto de estudo ou como parte de uma estratégia mais ampla de educação midiática?


Referências: Comunidade GEG Brasil

Acessos em 2 de maio de 2026.

Pesquise

Livros Infantis
Boas Dicas
plugins premium WordPress
Podcast do JC

Escolha um canal:

Envie sua carta

Endereço

Alameda Santos, 1165 – Caixa Postal: 121621, Jd. Paulista, São Paulo – SP, CEP: 01419-002