11 de setembro de 2026

É preciso mais do que colocar livros nas mãos das crianças

É preciso mais do que colocar livros nas mãos das crianças

Uma criança escolhe um livro. Lê um trecho. Gosta tanto daquela passagem que decide compartilhá-la com outras crianças.

Parece pouco, mas talvez seja justamente aí que esteja uma das chaves para formar leitores.

Em uma semana em que São Paulo recebe a 28ª Bienal do Livro, com sua imensa oferta de títulos, autores, editoras e encontros em torno da literatura, vale olhar para uma experiência muito menor em escala, mas enorme em significado. Ela acontece em uma escola de Indaiatuba, no interior de São Paulo.

E nos lembra que, para formar leitores, não basta colocar livros diante das crianças. É preciso criar experiências que façam com que elas queiram abrir esses livros.

O desafio é grande. A 6ª edição da Retratos da Leitura no Brasil, divulgada em 2024, mostrou que 53% dos brasileiros não haviam lido nem parte de um livro nos três meses anteriores à pesquisa. Pela primeira vez na série histórica, a proporção de não leitores superou a de leitores no país. Entre aqueles que não leem, a principal razão apontada foi justamente o “não gostar de ler”, mencionada por 33% dos entrevistados.

Os números nos colocam diante de uma pergunta que interessa especialmente à escola: como transformar o encontro com o livro em uma experiência de descoberta, curiosidade e prazer?

Uma resposta possível está em uma iniciativa simples, criada por uma professora da EMEB Doardo Borsari, em Indaiatuba (SP), dentro do projeto Ler Faz Bem.

Uma turma recebeu a sacolinha de leitura e escolheu um livro. Em vez de a experiência terminar na leitura individual, a professora teve uma ideia: os estudantes escolheriam um trecho de que mais haviam gostado, aquele que havia despertado alguma emoção, curiosidade ou identificação, e o leriam para alunos mais novos.

O gesto era singelo, mas produziu um efeito poderoso.

Quem ouviu o trecho ficou curioso para conhecer o restante da história. E foi então que a leitura começou a ganhar novos caminhos. Os estudantes passaram a compartilhar outras histórias com os colegas. Quem lia descobria também o prazer de contar. Quem ouvia queria saber mais.

E, pouco a pouco, aquele livro deixou as estantes da biblioteca para ganhar outros territórios: as conversas, as descobertas e o imaginário das crianças.

É esse o princípio do projeto Multiplicadores de Histórias. Um estudante lê para outro. Uma história desperta outra. A curiosidade de uma criança alcança outra criança. E a leitura deixa de ser apenas uma atividade individual para se tornar uma experiência de compartilhamento.

O projeto ganhou destaque no Jornal Doardo, publicação produzida pelos próprios estudantes da escola. Foi ali que a experiência ficou registrada: os alunos contando como compartilharam suas leituras e despertaram a curiosidade dos colegas.

O JC Jornal acompanhou essa iniciativa, conversou com os estudantes e com a professora e encontrou nela algo que merece ser ampliado. Porque há uma ideia importante por trás desse gesto aparentemente pequeno: a formação de leitores pode começar pela identificação.

Uma criança não precisa necessariamente receber uma lista de livros que “deveria” ler. Pode começar por um trecho fascinante, uma pergunta sem resposta ou por uma personagem que despertou sua curiosidade. Talvez esteja aí uma diferença fundamental. Trata-se de criar vínculos entre o leitor e aquilo que ele lê.

Não é a quantidade de livros que determina a potência da experiência. É o que fazemos com eles,  a maneira como os colocamos em circulação. É a oportunidade que damos aos estudantes de escolher, recomendar, compartilhar e conversar sobre aquilo que descobriram.

A própria pesquisa mostra que o gosto pela leitura ainda é uma motivação relevante entre os mais jovens, mas esse vínculo precisa ser cultivado. Entre crianças de 5 a 10 anos, 38% afirmam ler por gosto; na adolescência e até os 24 anos, esse percentual fica entre 31% e 34%.

Vale lembrar que a formação de um leitor pode começar em uma sala de aula, biblioteca ou na sacolinha de leitura.

Grandes transformações podem começar com uma pequena atitude feita por alguém que percebeu que uma história poderia despertar outra história.

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