10 de março de 2026

Família e escola: parceria ou terceirização?

Família e escola: parceria ou terceirização?

Texto de autoria de Lívia Valenziano

O ano letivo já começou. As reuniões pedagógicas já aconteceram, os planejamentos e combinados iniciais também. As expectativas foram renovadas e as equipes se reuniram e estão com força total! Tivemos uma pausa no meio desse início, o carnaval. Uma manifestação cultural, que vai muito além daquilo que vemos; nos esbarramos em histórias fortes, denúncias, causas que expressam identidade e nos revela quem somos enquanto sociedade. O carnaval nos lembra que somos pluralidade cultural, que devemos ter e ser respeitosos com a diversidade e combater preconceitos de qualquer natureza.

Mas agora o ano começa com tudo, e, justamente por isso, não podemos seguir sem uma reflexão forte e inadiável: que tipo de parceria queremos construir entre família e escola neste novo ano letivo? Há uma frase que silenciosamente percorre nos corredores das escolas por praticamente todos os perfis, “vocês precisam resolver isso.” Ora ela vem da família, às vezes, da própria escola.

Nos últimos anos, a relação entre família e escola deixou de ser parceria para se transformar em um sofisticado jogo de terceirização de responsabilidades. E ninguém parece disposto a admitir isso. A escola diz que os pais não educam, e os pais dizem que a escola não ensina. E no meio disso tudo, tem o aluno transitando entre essas duas instituições fortes e de grande relevância no dia a dia desse estudante, que, em vez de dialogarem, competem por apontar de onde é que o erro está vindo.

Será que estamos fazendo a pergunta errada? Acredito que o problema não é que as famílias mudaram. Na minha visão, as famílias sempre mudaram, a sociedade mudou, o trabalho mudou. As transformações fazem parte da história; na Antropologia, esse fato tem o nome de transformação social. Talvez o ponto central esteja em compreendermos, com mais clareza, qual é o papel de cada uma dessas instituições nesse novo cenário. A escola, sim, precisa ser lugar de afeto, de acolhimento e de escuta, pois já sabemos que relações saudáveis são condições imprescindíveis para que qualquer aprendizagem aconteça. A escola, no entanto, é, antes de tudo, um espaço profissional de desenvolvimento humano. É o ambiente onde habilidades cognitivas, sociais e emocionais são trabalhadas de forma intencional, planejada e fundamentada em estudos, metodologias e práticas pedagógicas construídas por profissionais que se dedicam a estudar educação.

Professores, coordenadores e equipes pedagógicas não atuam apenas com boa vontade; são profissionais que atuam com formação, pesquisa, técnica e responsabilidade institucional. Existem competências que são desenvolvidas na escola justamente porque há profissionais preparados para isso. Reivindicamos envolvimento familiar, mas não estruturamos canais consistentes de participação; falamos em corresponsabilidade, mas mantemos uma cultura de culpabilização. Não é convocar os pais apenas quando algo deu errado; é trazer, com frequência, uma comunicação ativa. Caminhar dessa forma tende a diminuir conflitos nas relações, afirmo com muita certeza!

Vejo com frequência situações que revelam esse desalinhamento: professores que se sentem sobrecarregados por demandas que extrapolam o pedagógico, famílias que se sentem julgadas, crianças que recebem mensagens contraditórias sobre limites, autoridade e responsabilidade. E há algo que precisa ser dito com clareza: a escola não substitui a família e a família não substitui a escola. Família é o espaço primário de construção de valores, vínculos e referências emocionais. A escola é o espaço da educação formal e cognitiva, da formação social e ética, do desenvolvimento socioemocional, da socialização e cultura, da preparação para a vida. Quando confundimos esses lugares, produzimos insegurança institucional. Não se trata de negar a complexidade social, trata-se de assumir profissionalismo.

É confortável afirmar que “os pais de hoje não são como antes”, mas é confortável também afirmar que “a escola precisa dar conta de tudo”. O importante nessa jornada toda é reconhecer que ambas as instituições precisam rever suas práticas. A escola precisa parar de infantilizar sua própria função, transformando-se em extensão afetiva desestruturada. A família precisa parar de tratar a escola como prestadora integral de serviços formativos. Educar exige presença, exige coerência, exige limites claros. Talvez o maior desafio contemporâneo não seja reconstruir a autoridade perdida, mas reconstruir a clareza institucional.

Enquanto continuarmos confundindo papéis, portanto, continuaremos produzindo relações frágeis e alunos inseguros sobre a quem escutar. Parceria verdadeira não é fusão de funções, é alinhamento de responsabilidades. E seguir nesse formato exige maturidade das duas partes.

Por que chegamos até aqui?

Se queremos soluções objetivas para este momento, precisamos compreender a origem desse desalinhamento. Vivemos uma sociedade marcada por jornadas de trabalho extensas, vínculos familiares mais complexos, excesso de informação e uma cultura de respostas imediatas. A escola passou a receber demandas que antes eram resolvidas dentro de casa, enquanto as famílias passaram a exigir da escola não apenas ensino, mas formação integral em tempo integral.

Há também um fator pouco discutido: a insegurança institucional. Professores, muitas vezes, sentem-se pressionados diante de questionamentos constantes e acabam flexibilizando decisões pedagógicas para evitar conflitos. As famílias, por sua vez, sentem-se inseguras sobre como educar em um mundo que mudou rapidamente e, por isso, buscam na escola uma referência que nem sempre é função dela assumir. O resultado não é falta de compromisso. É falta de clareza. E quando falta clareza, o que fica são os conflitos.

O que o professor pode fazer no dia a dia?

A mudança estrutural exige decisões institucionais. Há, no entanto, atitudes práticas que podem ser adotadas no cotidiano escolar e que reduzem ruídos na relação com as famílias. Uma delas é comunicar antes que o problema cresça. Não esperar que a situação se torne grave para entrar em contato faz diferença significativa. Um retorno breve, um registro positivo ou uma orientação preventiva fortalecem a confiança e mostram que a comunicação não acontece apenas em momentos de tensão.

Também é fundamental ser objetivo nas devolutivas. Evitar generalizações e descrever comportamentos observáveis, indicando encaminhamentos possíveis, torna o diálogo mais claro e menos defensivo. Da mesma forma, sustentar combinados com constância é essencial. Regras precisam ser previsíveis; a coerência gera segurança para alunos e famílias.

Outro ponto importante é não personalizar conflitos. Questionamentos nem sempre são ataques. Manter o foco na criança ajuda a evitar disputas de poder e preserva o vínculo entre escola e família. Registrar acordos após reuniões também reduz ruídos e interpretações divergentes; isso garante que todos tenham clareza sobre o que foi combinado. É igualmente necessário separar o que é pedagógico do que é doméstico. A escola não precisa absorver toda demanda. Orientar, sem assumir responsabilidades que não são institucionais, é um ato de profissionalismo. Por fim, manter postura profissional e não emocional, é indispensável. Educação envolve afeto, mas decisões precisam ser técnicas, fundamentadas e sustentadas com clareza.

Um caminho possível

As relações humanas não se resolvem com fórmulas prontas; não há receita pronta. No entanto, existem algumas práticas que funcionam quando há intenção, clareza e compromisso. Abaixo, listo algumas ações que já implementei e que trouxeram resultados concretos no fortalecimento da parceria entre família e escola.

  1. Alinhar expectativas no início do ano letivo. Deixar explícito o que compete à escola e o que é responsabilidade da família, isso busca evitar futuras frustrações. Estabelecer combinados institucionais claros.
  2. Normas de convivência e responsabilidades precisam ser apresentadas, registradas e revisitadas. Criar canais permanentes de comunicação. Não é prudente esperar o conflito para dialogar. A comunicação preventiva constrói confiança. É preciso chamar a família para celebrar avanços, não somente para tratar desafios.
  3. Decisões técnicas precisam ser mantidas com profissionalismo, sem oscilações diante de pressões pontuais.
  4. Promover encontros formativos com as famílias. Conversas sobre desenvolvimento, limites, rotina e aprendizagem fortalecem o alinhamento.
  5. Garantir coerência entre discurso e prática. Se falamos em parceria, precisamos agir como parceiros.
  6. Manter constância nas ações. Parceria não se constrói em um evento isolado, mas na repetição consistente de boas práticas.

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